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| Belo Horizonte e seus espaços vazios, num ambiente que ainda remete ao cotidiano de obras e construções. |
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Vai um cafezinho?
As obras avançam, a planta toma forma na mesa de trabalho da Comissão Construtora. Funcionários e comerciantes tomam postos e a empoeirada cidade vai deixando a forma de canteiro de obras.
Com a dinâmica cotidiana, alguns espaços surgem para permitir a vida social entre os membros da elite. Mas esse processo de desenvolvimento do lazer coletivo toma forma muito lenta e gradativamente. O recato ainda é característica fundamental dos habitantes da nova capital. A sinuosidade da geografia é o cenário da influência do caráter montanhês de BH nos hábitos da população que ali se formava.
As ruas projetadas para estimular e abrigar o convívio social permanecem vazias. Os primeiros passos são dados com a instalação de alguns cafés e com a passagem das primeiras companhias teatrais pela cidade, estimuladas sobretudo pela inauguração do Teatro Soucasseaux, em 1899.
Na busca constante pelo ar da modernidade cosmopolita planejada para Belo Horizonte, uma série de estabelecimentos continuavam a se instalar, permeados, entretanto, por alguns intervalos de vazio. São bares, cafés e casas de orquestra e espetáculos, que, em meio à poeira das obras, tentavam constituir um público fiel, que materializasse o tipo de vida social visível e exuberante, à maneira do que já acontecia no Rio de Janeiro e em São Paulo. Entre as décadas de 10 e 20, os teatros e os cafés tornam-se espaços de sociabilidade realmente importantes, em que a Literatura aparecerá como forte motivador cultural.
Belo Horizonte e o cinema - primeiros anos
| As práticas sociais, culturais e a comunicação de massa em Belo Horizonte, inclusive o cinema, são analisadas no livro Folhas do Tempo - Imprensa e cotidiano em Belo Horizonte, 1895-1926, de Maria Céres Castro, Paulo Bernardo Vaz et. al. Belo Horizonte: UFMG; Associação Mineira de Imprensa, Prefeitura de Belo Horizonte, 1997. |
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O cinema ainda era curiosidade que repousava em eventuais exibições do cinematógrafo, engenhosidade dos irmãos Lumiére, que impressionara os cariocas em 1896.
| Um completo panorama da História do Cinema em Belo Horizonte é realizado na publicação O Fim das Coisas. Belo Horizonte: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte; Secretaria Municipal de Cultura, 1995. |
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Mais tarde, a partir da chegada da primeira companhia cinematográfica a Belo Horizonte, em 1905, a Companhia Barrucci, o contato do público com o cinematógrafo tornou-se mais constante. Como enfatiza a pesquisadora Alice Sosnowski, no artigo Soirées Chics dos Jornais, a partir desse momento, o cinematógrafo deixa de ser exibido nos espaços privados, domésticos, para ser exibido no teatro, naquelas circunstâncias, no teatro Soucasseaux, o maior teatro belo-horizontino da época. E, com a instalação do primeiro cinematógrafo permanente da capital, em 1906[1],
a sede do Teatro Paris, "um centro de sociabilidade chic" segundo o pesquisador Ataídes Braga, torna-se um espaço efetivo de exibição de cinema. Mais tarde, em 1912, o Teatro Paris assumiria o nome de Cine Odeon, importante referência para a vida cinematográfica da cidade, sobre do qual Carlos Drummond de Andrade lamenta o fechamento no poema O Fim das Coisas, de 1928.
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| Fachada do Cine Odeon, à Rua da Bahia. |
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Fechado o Cinema Odeon, na Rua da Bahia.
Fechado para sempre.
Não é possível, minha mocidade
fecha com ele um pouco.
Não amadureci ainda bastante
para aceitar a morte das coisas
que minhas coisas são, sendo de outrem,
e até aplaudi-la, quando for o caso.
(...)
A espera na sala de espera. A matinê
com Buck Jones, tombos, tiros, tramas.
A primeira sessão e a segunda sessão da noite.
A divina orquestra, mesmo não divina,
costumeira. (...) |
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A vida social na primeira década
Chega ao final a primeira década do século 20. O início da atividade industrial motiva o surgimento de novas práticas de sociabilidade em Belo Horizonte. O cinema acompanha esse clima de desenvolvimento, demonstrado sobretudo pela abertura de novas salas, que apresentavam as novidades do Rio de Janeiro, sobretudo pequenas aventuras e musicais. Nascem, nessa época, o Cine Central, à Rua da Bahia, e o Cine Ideal, à avenida Paraná. Muitos cinemas surgem em associação com salões e confeitarias, o que será uma tendência, como o caso do Cinematógrapho Maciel, junto à confeitaria de mesmo nome, e do Cine Colosso, no salão Éden Mineiro. O cinema Odeon firmava-se como centro em que circulavam importantes nomes da sociedade.
Já em 1919, o nascimento do Cine Comércio alavanca a era dos cine-teatros constituídos não somente para abrigar exibições de cinema, como também outros tipos de espetáculo. É também a era dos empreendimentos já concebidos segundo um modelo de gestão empresarial e administrativa, buscando as melhores tecnologias de construção e instalações.
Os primeiros anos da capital abrigaram, por entre a poeira das obras, os primeiros indícios de um paradoxo que iria permear a vida da metrópole iniciante:a necessidade de realizar e materializar o ideal republicano e o jeito despojado de se buscar o entretenimento nos moldes do interior, não afeito ainda à vida social exposta das grandes metrópoles. É somente a partir da década de 20 que os primeiros passos em direção à superação desse fato serão dados.
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| Fachada do Cine Floresta, à esquina das Ruas Pouso Alegre e Itajubá. |
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Ao longo dos anos 10, a população começa a tomar posse das ruas e espaços públicos projetados para a vida social, e o cinema na rua, atividade repleta de glamour, tem sua importância consolidada nesse processo, tanto no que diz respeito a uma sociabilidade chic, como também numa sociabilidade popular favorecida pelo aparecimento de salas fora dos eixos elitistas das ruas e avenidas centrais. Destaca-se nesse momento a inauguração, em 1915, do Cine Floresta, além do surgimento de "Cines populares"como o inaugurado na Rua Ouro Preto em 1912.
Outra salas registradas na capital ao longo da década de 10 são: Cinema Avenida, na Av. Afonso Pena, em 1910, o Theatro Variedades, o parque Cinema, à Rua dos Caetés, o Cine Eclair, à esquina das ruas São Paulo e Carijós e o Progresso, à rua Espírito Santo.
Belo Horizonte vai ao cinema
A partir dos anos 20, cidade e cinema passam a desenvolver uma relação mais complexa, com mais influências na vida cultural local. Práticas como o footing, "passeios tão úteis ao corpo quanto agradáveis ao espírito[2]", ganham a adesão do belo-horizontino, o que torna as ruas uma extensão dos espaços de lazer, ou, ao contrário, torna os espaços de lazer uma extensão do modo de sociabilidade público que finalmente passa a ganhar as ruas.
Novas salas com perfil "popular" são abertas, mesmo nas ruas do centro, como a Av. Paraná e R. Caetés, e novas opções, cada vez mais modernas, vão sendo apresentadas à elite.
Iniciado esse primeiro surto de desenvolvimento, que desponta na década de 10, e consolida-se nos anos 20, a imprensa passa a ocupar um lugar na cobertura da vida cultural e cinematográfica das capitais. Ainda nos anos 10, colunas de cobertura cultural são criadas nos grandes jornais, a exemplo da coluna Pelos cinemas, do Estado de Minas, que mesclava a um serviço de informações com coluna social. Até então, grandes jornais de Belo Horizonte, como o Jornal do Povo, A capital e Bello Horizonte ainda não realizavam uma cobertura cultural.
O cinema torna-se um verdadeiro ramo de empreendimentos na capital, ansiosa pelo alinhamento cultural às capitais de Rio e São Paulo, onde há movimento, novidades e glamour nas ruas, teatros, cafés e salas de exibição.
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